A crescente demanda por atendimento educacional direcionado a crianças atípicas e a falta de estrutura pública sólida e capacitada nos leva, inevitavelmente, à ausência de políticas públicas eficazes. Este contexto balizou a palestra “Políticas Públicas Inclusivas e Neurodivergências” da educadora e co-fundadora da Plataforma ÍmPares, Caroline Turri, na tarde desta quinta-feira (08), na sede da Undime/RS – União dos Dirigentes Municipais de Educação do RS – em Porto Alegre, na qual trouxe conceitos em torno das atipias e a invisibilidade estrutural que retarda avanços dessa pauta.
“A infância é a janela de desenvolvimento mais importante da vida humana. É nela que se formam conexões cerebrais, padrões afetivos, habilidades sociais e cognitivas. Se negligenciada, especialmente nos primeiros seis anos, pode haver prejuízos duradouros. Com o aumento exponencial de diagnósticos de transtornos do neurodesenvolvimento, torna-se essencial que o poder público prepare seus serviços para acolher essas crianças de forma digna, ágil e qualificada”, afirmou Caroline.
A educadora ressaltou que ainda existe uma invisibilidade estrutural em torno do tema, e “Um exemplo disso é que apenas 18% das capitais brasileiras contam com centros de referência para Transtorno do Espectro Autista com atendimento contínuo.”
Relatos de profissionais que atuam na base dos serviços públicos, como professores, agentes de saúde e assistentes sociais, atestam as dificuldades significativas em identificar e acolher famílias com crianças neurodivergentes. Segundo Caroline, há insegurança em relação à atuação nesta linha de frente – muitos desses profissionais expressam receio de "fazer errado" ou de não saberem lidar adequadamente com as complexidades das neurodivergências – e impacto na relação familiar, já que essa falta de preparo pode levar a situações de evitamento, encaminhamentos inadequados e falhas na construção de um vínculo de confiança com as famílias.
Ela destacou iniciativas inovadoras em diversos municípios brasileiros e do mundo com o objetivo construir um futuro mais inclusivo para as crianças neurodivergentes, como leis que criam semanas de ações educativas e mobilizações públicas, estruturadas com escutas públicas, rodas de conversa, ações escolares, e capacitações intersetoriais – um exemplo é a Lei nº 12.838/2014, de São Paulo, que instituiu a Semana Municipal de Conscientização.
“Curitiba criou salas de acolhimento sensorial em Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs), espaços simples com baixa luz, ruído reduzido, texturas e materiais que ajudam na autorregulação e prevenção de crises, promovendo inclusão sensorial. O município de Vitória, no Espírito Santo, oferece formação continuada em neurodiversidade, com certificação. E vários municípios estão implementando colaborações entre secretarias para atendimento integral, protocolos intersetoriais de atendimento precoce com definição de fluxos claros entre saúde, assistência e educação para garantir que nenhuma criança fique sem resposta e receba o suporte necessário desde cedo”, destacou Caroline.
O apoio às famílias também é parte essencial neste processo a fim de prevenir a depressão materna, o abandono de vínculos e a violência institucional, garantindo o bem-estar de toda a família.
Sobre a ÍmPares
A ÍmPares é a plataforma que conecta conhecimento, empatia e inclusão para transformar o modo como se promove o desenvolvimento das pessoas neurodivergentes e com outras atipias. Fundada pela presidente do Instituto Melnick e ortodontista Camila Melnick, pela educadora e advogada Caroline Turri e pelo CTO e especialista em tecnologia André Borba, tem o objetivo de fortalecer instituições de ensino em todo o país a partir da capacitação e qualificação dos seus profissionais. Além do foco no aprendizado, é um movimento que acolhe famílias para que, a partir da soma de ciência e sensibilidade, a inclusão aconteça de forma real e eficaz.
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