Artesanato mantém vivas as tradições Guarani
Projeto Ar, Água e Terra reúne onze aldeias onde a cultura segue transmitindo conhecimentos sobre manejo sustentável da floresta e conservação ambiental

Por Igor Dreher
05/08/2026 16h50

Segundo a tradição Guarani, Tupã criou a mulher a partir de um balaio. Essa relação simbólica está presente nas adjaka, cestas típicas dos Mbyá-Guarani produzidas em taquara e confeccionadas especialmente pelas mulheres das aldeias. O Projeto Ar, Água e Terra, desenvolvido pelo Instituto de Estudos Culturais e Ambientais (IECAM) com o patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, ajuda a manter esse conhecimento vivo em onze aldeias Guarani do Rio Grande do Sul, onde o artesanato continua sendo uma das principais formas de transmitir modos de viver, produzir e cuidar da floresta. 

Além de manterem vivas as tradições por meio de sua expressão artística, o artesanato representa uma fonte de renda para as comunidades e estabelece um elo entre os saberes dos povos originários e a sociedade. Tradição que deve ser ressaltada quando se comemora o Dia Internacional dos Povos Indígenas, celebrado mundialmente em 09 de agosto.

Produzir uma cesta começa muito antes do trançado. É preciso conhecer a época correta para coletar cada fibra, preparar o material e dominar técnicas transmitidas entre mães, avós e crianças. Antes da retirada das plantas, a tradição prevê um pedido de permissão aos espíritos da floresta, reconhecendo que os recursos naturais não pertencem às pessoas, mas fazem parte de uma relação sagrada e de reciprocidade que precisa ser respeitada.

O mesmo acontece com as esculturas em madeira, produzidas pelos homens da aldeia. O jacaré simboliza o amor e a paz. O tucano representa o desejo de viver livre. O tamanduá traduz a busca pela tranquilidade. As esculturas carregam um ensinamento, e transmitem o respeito pela fauna e conexão espiritual na cultura Guarani. O artesanato Guarani também acompanha cerimônias e momentos da vida cotidiana. Colares, pulseiras, cachimbos e instrumentos musicais ajudam a preservar formas de expressão e de proteção dos Guarani.

A relação de respeito com a floresta também pode ser dimensionada ou quantificada quando se trata de um projeto que tem como objetivo central a gestão sustentável dos territórios e a restauração e reconvenção ambiental, valorizando os saberes tradicionais. Nas comunidades participantes do Projeto Ar, Água e Terra, as áreas em recuperação ambiental triplicaram e hoje ultrapassam 30 hectares. As áreas destinadas à reconversão produtiva passaram de cinco para 26 hectares, enquanto mais de 60 mil mudas nativas foram plantadas e os viveiros comunitários produziram 30 mil. O resultado aparece também na conservação de mais de 90% das áreas onde o projeto atua, contribuindo para proteger áreas estratégicas dos biomas Pampa e Mata Atlântica e para a captura de mais de 30 mil toneladas de dióxido de carbono (CO₂).

Além da recuperação ambiental, o Projeto Ar, Água e Terra promove intercâmbios entre as aldeias para ampliar a circulação de técnicas artesanais, sementes e conhecimentos tradicionais. O futuro também se constrói quando um povo aprende com seu passado.

Sobre o Projeto Ar, Água e Terra

Com atuação em diferentes regiões do estado, o Projeto reúne iniciativas que vão desde a recuperação de áreas degradadas até o cultivo de espécies nativas e o fortalecimento da segurança alimentar nas aldeias — sempre a partir de uma construção conjunta com as aldeias indígenas. Construído há mais de três décadas com a etnia Mbyá Guarani, tem foco na gestão sustentável dos territórios indígenas, incluindo viveirismo, educação etnoambiental e sistemas de energia renovável. Atualmente, envolve mais de 300 indígenas em áreas que somam mais de três mil hectares nos biomas Pampa e Mata Atlântica.

Sobre o IECAM

Fundado em 1991 e sediado desde 2011 em Porto Alegre/RS, é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos com a missão de pesquisa e desenvolvimento de ações socioambientais sustentáveis, através da revitalização de saberes tradicionais e da biodiversidade.

Desde a década de 90, o IECAM desenvolve atividades e projetos com associações, escolas, universidades, comunidades ribeirinhas e índios, com parceiros como UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), Carteira Indígena de Projetos (Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e Ministério do Meio Ambiente), IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Ministério da Cultura) e Petrobras.

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